No Brasil e na América, ideologias políticas que não dão certo se espelham

Se os Estados Unidos quisessem ter uma idéia de seu futuro, só precisariam dar uma olhada para o estado em que se encontra o Brasil no momento, depois de mais de uma década de governos populistas. O mesmo é verdade também para o Brasil – a ascendência crescente de uma reação raivosa e populista da direita brasileira está fazendo com que o país se pareça cada vez mais com a América de Trump.

Um leigo carismático, sem experiência em política, pega carona no sentimento contrário ao sistema estabelecido e chega à presidência. Ele lidera um movimento político tribal no qual há pouco espaço para sutilezas ou opiniões contrárias. A sua retórica é agressiva, divisionista e algumas vezes vulgar; e ele tem afinidade com ditadores de outros países. Diz representar o povo apesar de amplas evidências do contrário. Ele preenche os cargos de seu governo com funcionários medíocres e servis, valorizando a lealdade antes da capacidade profissional e assim, logo o governo fica cheio de noviços inexperientes e sem qualificações, com inteligência e ética questionáveis. O caos se instala com a constante quebra de normas que vai crescendo gradualmente até criar um novo patamar de normalidade. Os erros e tropeços são muitos, assim como as alegações de corrupção ou irregularidades, mas ninguém nunca assume nenhuma responsabilidade por nada. Eles culpam o presidente anterior ou o partido anterior, ou dizem que não sabiam das coisas erradas que estavam sendo feitas por membros de seu governo, que são descartados sumariamente (ainda que eventualmente possam ser perdoados e recontratados). A responsabilidade nunca é deles, especialmente do chefe. As reportagens sobre corrupção ou irregularidades sempre são resultado de uma mídia tendenciosa e desonesta. O mesmo acontece com qualquer tentativa de processos criminais, já que sites de mídia alternativa e agitadores da internet endossados pelo presidente e seu partido acusam rotineiramente os juízes, promotores e investigadores federais de mentir e de promover a caça às bruxas. Com o passar do tempo as pessoas se acostumam com a nova situação e aprendem a lidar com um sentimento crônico de inquietação e desamparo, conforme continuam a assistir cenas  absurdas  se desdobrando nos noticiários. Apesar de tudo isso, por um certo tempo a economia vai bem, consequência de políticas financeiras sólidas do governo anterior e um cenário econômico global geralmente positivo. As pessoas encarregadas se aproveitam do noticiário econômico positivo para aumentar os gastos públicos, focando em assistências modestas mas simbólicas aos pobres e trabalhadores, enquanto ao mesmo tempo favorecem os mais ricos do país com subsídios obscenos. Obviamente, com o tempo esse castelo de areia  acaba desabando, já que estava sendo construído com promessas incumpríveis, com políticas mal pensadas e super simplistas e com gastos temerários.

Não, eu não estou falando da América de Donald Trump, ainda que eu pudesse estar. Com certeza essa será a narrativa que acabará se desdobrando por lá também. Neste caso, estou falando de Luiz Inácio Lula da Silva, o ex presidente do Brazil por dois mandatos, o líder do Partido dos Trabalhadores e candidato em potencial a se eleger presidente nas eleições de 2018, apesar de ter sido condenado em múltiplos casos de corrupção e várias outras acusações ainda pendentes.

Sim, existem muitas diferenças entre Lula e Donald Trump. Suas ideologias e experiências podem ser completamente opostas, mas suas ações são notavelmente consistentes. Então, os americanos podem olhar para o Brasil para poder ter uma idéia do que acontecerá ao país deles depois de ter um regime populista instalado no poder por um período de tempo significativo (mais de 10 anos no Brasil, e vamos esperar que seja bem menos no caso do Trump.) Os resultados de tais regimes são deprimentemente previsíveis: Finanças públicas em desordem, a população dividida, a economia em caos, a corrupção rampante, pior ainda do que antes (e antes já era uma corrupção desgraçada). Com o tempo uma reação adversa acaba acontecendo, pois a população já não aguenta mais; e uns populistas acabam sendo substituídos por outros populistas, de convicção oposta.

As sementes já foram plantadas na América: basta olhar para a ineficácia da ala predominante do Partido Democrata e para a militância de sua ala mais populista dos “Bernie bros”, para se ter uma idéia do que virá em seguida.

No Brasil, o pêndulo já foi para o lado oposto. Então, se a América pode olhar para o Brasil para ter uma idéia de seu futuro, o Brasil pode fazer a mesma coisa. Depois de mais de uma década de poder populista de esquerda no Brasil, a reação que os tirou do poder foi decisivamente de direita. No começo foi um movimento de centro-direita, focado em combater a corrupção e consertar o país através da retirada de partidários incompetentes que ocuparam posições governamentais por vários anos, substituindo-os por tecnocratas mais bem formados e experientes. Foi uma retomada da normalidade e, francamente, por membros da elite que estava no poder antes. É verdade que com frequência as elites que governavam o Brasil anteriormente se comportavam muito mal, mas comparado à bagunça que os populistas de esquerda fizeram, eles já não pareciam mais tão maus.

Pouco mais de um ano atrás, essas figuras de centro-direita acabaram voltando ao comando do país, depois do impeachment de Dilma Roussef, aquela que tinha sido escolhida a dedo por Lula, e que foi muito menos bem sucedida do que ele. Mas não tem dado certo.

Desde então as coisas tomaram um rumo reacionário. O ex vice-presidente de Dilma que a substituiu no comando do país, Michel Temer, é a epítome da velha política e tem tido um grau de aprovação ridiculamente baixo desde que assumiu o cargo. Ele mesmo está enfrentando várias alegações de corrupção e parece estar mais focado em salvar a sua própria pele e aquela de seus cúmplices, do que em governar o país. Alguns tecnocratas estrategicamente colocados conseguiram estabilizar a economia mas a situação permanence difícil, com um crescimento anêmico que não tem sido suficiente para contrabalançar o desespero causado pela pior recessão da história. O sentimento “anti-establishment” está de volta com vingança, mas agora, depois de tamanho desencantamento com a esquerda brasileira, assumiu um fervor muito forte pela direita.

Enquanto Lula, Dilma e o Partido dos Trabalhadores estavam no poder, os partidos de direita brasileiros foram tomando nota do crescimento do movimento de extrema direita na América. Agora, depois de anos de obscuridade, eles se aproveitam da antipatia tanto ao “establishment” quanto à esquerda, para criar um movimento poderoso e assustador. Graças a esse movimento, muitos brasileiros agora são a favor de várias das bandeiras da política do “Tea-Party” americano. Eles são a favor de uma ideologia radical de livre mercado e da diminuição do estado, descartam iniciativas com base em diversidade por serem injustas ou impraticáveis, preferem a industrialização sem restrições e a expansão do agro-negócio do que a proteção do meio-ambiente. São a favor do cristianismo Evangélico fervoroso, professam seu amor ao exército, pedem por leis frouxas em relação ao porte de armas generalizado e, em geral, ridicularizam os progressos recentes em relação à comunidade LGBT e aos direitos das mulheres. É o retorno à política machista, depois de uma era relativamente progressista. A pessoa que mais bem os representa é Jair Bolsonaro, um congressista e ex militar do estado do Rio de Janeiro, que adora fazer comentários incendiários tais como elogiar os torturadores da ditadura militar de antigamente ou dizer que uma de suas colegas no Congresso não “merecia ser estuprada por ele.” Existe uma ala do Congresso conhecida como “Bíblia, boi e bala” que é a favor de religiosidade, armas e agro-negócio com rigor, da qual ele é emblemático. Muitos simpatizantes da extrema-direita brasileira compartilham clips da Fox News rotineiramente nas redes sociais, criticam a Hillary Clinton por ser uma socialista radical, são a favor dos direitos de qualquer um de carregar armas, criticam a “agenda gay” como sendo uma ameaça aos valores tradicionais e ridicularizam o feminismo e a “teoria do gênero.”

Infelizmente o Brasil já lida com muitos dos mesmos problemas que os Estados Unidos tem, que podem ser o resultado das políticas de direita: violência policial, racismo sistêmico, violência contra as mulheres, crimes de ódio contra gays e transgêneros, degradação ambiental e desigualde econômica. De fato, em todos os casos, os problemas do Brasil são piores do que os americanos. E, se os políticos brasileiros continuarem nesse caminho reacionário, os brasileiros podem esperar que as coisas fiquem ainda piores em todas essas frentes. Se as leis de porte de arma forem afrouxadas, poderemos adicionar a essa lista o espectro dos tiroteios de massa de estilo americano. E isso em um país que já não precisa de mais violência – tem um dos maiores índices de homicídio do mundo, que em muitos lugares se compara a zonas de guerra.

Isso é suficiente para fazer qualquer pessoa se desesperar. O Brasil e os Estados Unidos podem olhar um para o outro para ver seus futuros e em ambos os casos o futuro é desolador.